Depois de um “clic”, descobri que era gente.
Foi aos nove anos de idade quando tirei a minha primeira fotografia. Era o dia da minha Primeira Comunhão, na igreja matriz de São José, em Fernão Velho, um bairro industrial de Maceió. Vivíamos lá, meus pais e minhas seis irmãs - sou a quarta de uma numerosa família de sete filhas, todas mulheres. Filha de operários de fábrica, vivíamos “de arrumação”, um vizinho dava um pouquinho dali, outro, um pedacinho daqui. O que meus pais ganhavam mal dava para a alimentação racionada que se resumia a feijão, farinha de mandioca e sururu, um molusco que a gente apanhava lá perto, na Lagoa de Mundaú. Vestido, ganhava um por ano, no Natal. Fotografia minha, nem pensar!
Meu sonho era me ver numa foto. Minhas irmãs todas tinham fotos, pois se apadrinhavam de umas vizinhas ou amigas de minha mãe e logo já estavam sentadas, posando para as fotos. Os vizinhos chamavam: “Vou levar fulaninha comigo hoje para o comércio, para me ajudar”. Quando fulaninha chegava, chegava com uma fotografia. Aquilo, pra mim, era dolorido demais. E eu nunca fui de fazer favor para vizinho. Eu queria trabalhar, queria lutar, porque sabia que se fosse começar a fazer favor pra vizinho, ia acabar onde? Em casa de família como empregada doméstica, e eu queria mais. A gente nasce com aquele destino de querer ser alguém um dia na vida, de querer crescer e eu, na minha cabeça de criança, querendo ser professora. Queria ensinar o mundo inteiro. Achava que ninguém poderia ficar analfabeto como aconteceu com os meus pais.
As minhas irmãs eram lindas, moreninhas, gordinhas, dentes brilhantes com sorrisos perfeitos e as vizinhas se derretiam com a beleza delas. Eu sempre fui a mais feinha das sete, preta, magra e ainda por cima desdentada. Aos 8 anos tive um problema serio, uma doença na gengiva. Meus pais não sabiam o que era. Todos os dentes doíam e sangravam. O médico os aconselhou a tirarem os meus dentes superiores, que já eram permanentes. Imagine uma criança com 9 anos de idade magra, feia e... sem dentes! O pessoal da rua, os vizinhos, todos me chamavam de urubuzinha. Quem tiraria uma fotografia minha?
Eu era o terror dos fotógrafos. Ficava atrás das árvores da praça escondida. O lambe-lambe ajeitava as pessoas, mexia no queijo, arrumava o cabelo, deixava todo mundo posicionado para a foto. Na hora em que ele entrava debaixo do pano preto eu corria e ficava bem atrás da pessoa assim com a mão nos “quartos”. Pronto, quando o fotógrafo descobria, gritava comigo, me dava carreira tentando me afastar das pessoas, me chamava de urubu. Dizia que eu perturbava todo mundo. Que não tinha sossego e não dava sossego a ninguém. Eu era um tormento. Levei várias surras por conta disso, das reclamações. Meu pai e minha mãe, que precisavam da ajuda do outros, se sentiam mal quando eu aprontava.
Minha mãe não tinha como pagar uma foto pra mim. Um dia vi o retrato de uma garota do colégio com o padre colocando uma hóstia na sua boca. Pra mim isso foi demais, jurei que eu ia tirar uma foto como aquela. Tinha uma árvore na minha casa, uma mangueira, que era o meu lugar predileto. Eu subia naquela mangueira e ali passava o dia todo, ninguém me incomodava. Eu achava que o “clic” da máquina quando bate a foto, era o fotógrafo quem fazia, não a máquina. Então, eu subia na árvore, levava as fotos das minhas irmãs debaixo do vestido escondidas, e começava: botava uma perna de lado e eu fazia “clic”, jogava o cabelo para trás e fazia “clic”, botava a mão no queixo, “clic”. Tinha tara de tirar uma foto com a mão na cintura e o pé para frente, minha pose preferida. Na minha imaginação, eu tinha varias fotografias. Tudo isso espelhada nas minhas irmãs. Quando vi a foto da menina com a hóstia, pronto, eu achava que, se tinha uma chance de tirar essa foto ia ser no catecismo.
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“Às vezes perguntava a
Deus porque Ele me fez feia e mal-desenhada. Se eu fosse bonita como minhas
irmãs, tirariam fotos minhas” |
Foi assim que, aos 9 anos, entrei para fazer o catecismo na paróquia de São José. Era um sonho, não perdia uma aula de catecismo, todos os dias eu estava lá. Mas como alegria de pobre dura pouco faltando uma semana para a Eucaristia, a madre fez uma reunião com as mães, e para meu desespero, minha mãe me comunicou que não tinha dinheiro para pagar a foto da Comunhão. Chorei, me descabelei, entrei em pânico. Subi até o olho da mangueira e fiquei lá o dia inteiro, não queria ver ninguém. Meu único consolo e companhia eram as fotos das minhas irmãs. Fiquei admirando aquelas fotos e me imaginando estar no lugar delas. Às vezes olhava para o céu, e perguntava a Deus porque Ele me fez feia e mal desenhada? Se eu fosse bonita, os vizinhos tirariam fotos minhas. No meio dos soluços, tive uma idéia: ia ajudar na limpeza da casa do padre Delfino e, assim, conseguir o dinheiro.
A roupa, minha mãe tratou de arranjar emprestada, era um traje de freira. Às 7 horas e trinta minutos da manhã do dia 8 de dezembro de 1965, eu já me encontrava na Igreja, fui a primeira a chegar, vestida de freira, um morim fininho e transparente que me deixava encabulada. O padre falava demais, a missa não acabava. Eu estava inquieta, emocionada. Cheguei a quebrar a vela que segurava na mão de tanto torcer, virar pra cá e pra lá para procurar o fotógrafo, um velho gordo, baixinho e careca, seu Zé Silva. Eu só pensava naquela foto com o padre colocando a hóstia na boca da minha colega. A madre Lenira, professora de catecismo, tinha dito que o padre representava Jesus Cristo na foto. Cheguei a sonhar com aquilo, tive até febre na noite anterior, delirei a noite toda. Era ansiedade, mas minha mãe disse que foi a chuva, que era gripe.
A madre Lenira falava manso: “Façam fila para receber o corpo de Cristo, será a sua Primeira Comunhão”. Eu nem escutava o que ela dizia, passei na frente de todas, de olho no equipamento armado ao lado do altar. A primeira foto tinha que ser a minha, antes que a máquina quebrasse. Já tinha visto a máquina do fotógrafo quebrar na praça -ele dizia para as pessoas aguardarem, que ia para Maceió consertar e ficava dois dias sem aparecer, era uma angustia.
A Igreja estava lotada, o padre com a mão esticada dando a hóstia, e eu na ponta dos pés percorrendo a Igreja com os olhos atrás do fotógrafo. Era uma foto só que ia ser tirada, lógico, e o coitado do fotógrafo estava procurando minha mãe para saber se podia bater naquela hora. Eu li nos lábios dele a pergunta e da fila, gritei: “Pode seu Zé Silva, pode, eu consegui o dinheiro, tá a aqui, ó”. Abri o livrinho do catecismo e mostrei que o dinheiro estava lá contado, certinho. Todos me olhavam espantados, todo mundo ria dentro da igreja, o padre sorriu. E ainda expliquei mais, que eu tinha trabalhado, que aquele dinheiro era meu, que eu tinha ganhado trabalhando na casa do padre. E ele rindo, até hoje é vivo o padre Delfino. Eu tentava me arrumar, abrir a boca ao mesmo tempo em que olhava para o fotógrafo embaixo daquele pano preto, bem do meu lado esquerdo. Eu pedia a ele que esperasse, queria a hóstia entrando na minha boca, não me continha de tanta felicidade. E na hora em que eu estava naquela empolgação, olhando pra um lado e para o outro, esperando que o homem dissesse “clic” ele foi e disse: “Olha o passarinho”. Eu olhei para trás, olhei para o pano preto, olhei para a mão do padre e fiz pluft... Desmaiei! Nem foto, nem hóstia.
Só me lembro que, quando acordei, estava na Sacristia da Igreja. Naquela época tinha aquelas beatas, aquelas mulheres que ficam atormentando, e eu achei que estava na frente do padre e ligeirinho já me posicionei para a foto, fui logo abrindo a boca achando que estava na igreja. Mas ouvi as pessoas falando: “Ela não tomou café, deve estar em jejum”, achando que eu tinha desmaiado de fome. Aquele tinha sido um dia especial na minha casa, minha mãe tinha conseguido preparar charque (carne seca), cuscuz de fubá e chá de erva-cidreira (porque em casa só se tomava café quando meu pai recebia no final do mês e no quintal da gente o que não faltava era erva-cidreira). Levantei depressa e gritei logo que o meu problema não era fome. “Cadê o fotógrafo? Cadê o padre?” As beatas acharam que eu estava delirando, tentaram me segurar. Saí correndo. Percorri a Igreja toda. Os fiéis já estavam saindo, procurei na multidão e não encontrei nenhum dos dois. Não lembrei mais da hóstia, nem da Comunhão, só queria a minha foto. Minha mãe tentava me segurar, a madre Lenira me acalmava dizendo: “Na próxima missa você comunga”. Mas eu só gritava: “Cadê o fotógrafo? Cadê o fotógrafo?”. Infelizmente ele tinha sumido...
O mundo tinha acabado pra mim. Sentei nos degraus da Igreja descontrolada, era o fim, o mundo tinha desabado na minha cabeça. Uma semana esfregando o chão da casa do padre. Os gritos histéricos da empregada do padre, a Marina, os sacos de lixo que tive de arrastar de tão pesados, uma semana inteira ralando com o único pensamento que eu estava trabalhando para tirar a minha foto! Minha mãe me pegou pelo braço, eu descia a escadaria cabisbaixa, e, de repente emperrei no último degrau. Olhei para a minha mãe e disse: “Eu trabalhei, eu tenho dinheiro, eu quero a minha foto”. Minha mãe tentava me bater, dizendo que eu a estava envergonhando diante das pessoas. Ajoelhei-me voltada para a igreja e gritei bem forte: “Daqui eu não saio, pode a senhora me bater, fazer o que quiser. Por favor, Deus, eu quero a minha foto”. Minhas amigas tentavam me acalmar e perguntavam porque eu desmaiei. E eu, chorando dizia: “A culpa foi do fotógrafo. O padre já ia colocar a hóstia na minha boca, e ele disse olhe o passarinho. Quando olhei, vi um passarinho na mão do padre e pluft...”
Ainda enxugando as lágrimas com a echarpe da freira amarrotada nos ombros, fui levada pela madre Lenira e minha mãe, da igreja até a casa do fotógrafo. Ajeitou-me na frente de um pano azul escuro para não aparecer a parede desbotada e encardida, colaram a vela quebrada, enxuguei as lágrimas, olhei bem para o fotógrafo, suspirei feliz e disse: “Seu Zé Silva, mesmo sem a hóstia, eu quero a foto. Mas faça o ‘clic’ só, não chame o passarinho”.
Ele era o lambe-lambe mais famoso do bairro, entregava as fotos em quatro horas. Eram dez da manhã, fiquei aguardando na porta sem tirar o traje de freira. E que, na dúvida se a foto queimasse, eu tiraria outra e se eu fosse para casa, minha mãe ia devolver a roupa de freira, e aí, como seria? Eu, na fila da Igreja já tinha sido a primeira porque tinha medo de a máquina quebrar... Minha mãe tentou me levar para casa, mas eu não quis, fiquei lá, sentada na porta, com a roupa de freira. Às 14 horas, o fotógrafo bateu no meu ombro, eu estava dormindo. Acordei sobressaltada: Prestou, seu Zé Silva? Eu só estava cochilando! “Aqui está”. Eu parei diante da foto, olhei para o fotógrafo e perguntei “Sou eu?”. Não acreditava no que estava vendo, permaneci por uns 15 minutos sem falar nada, nem uma palavra. Só senti que tinha alguém do meu lado quando ele falou: “Pode ir”.
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“Dormi com ela ao meu
lado, pregada na parede, coberta com um plástico transparente para não sujar.
Dormi como um passarinho” |
Foto 15X10, preto e branco, corpo inteiro, olhar desconfiado. Nunca tinha sentido o que senti naquele instante mágico. Foi um momento inédito, uma coisa que ficou na minha vida. Percorri todo o bairro, eu queria esfregar nas ventas de todo mundo, todos viram a minha foto. O que mais me impressionou é que eu não me achei feia como diziam, talvez porque estava de boca fechada, e isso me deixou ainda mais radiante. Não sei se consegui comer ou beber naquele dia, só sei que eu estava feliz.
Dormi com ela ao meu lado, pregada na parede, coberta com um plástico transparente para não sujar. Dormi como um passarinho. Aquele era o dia mais feliz da minha vida e as palavras do fotógrafo soavam no meu ouvido como uma melodia: “Você é a menina mais inteligente e bonita que eu já fotografei”.
Hoje, aos 41 anos de idade, sou diretora e proprietária de uma escola de primeiro e segundo graus, com mais de 500 alunos, em Maceió. Consegui reformar a casa dos meus pais, lá em Fernão Velho onde eu nasci e onde minha mãe ainda mora. Só não tem mais o pé de mangueira.
Mas o trauma das fotos não passou ainda. Pode faltar tudo dentro da minha casa, menos uma máquina fotográfica. Tenho foto de todo o jeito. A minha sala na diretoria da escola é forrada de fotos minhas, dos meus filhos, dos meus alunos e ex-alunos. Sei que é uma coisa feia, mas cada louco com sua mania. É uma coisa minha, e eu gosto.
O meu “dia mágico” como eu chamo, foi aquele da minha primeira fotografia. Foi ali que eu fiquei com mais força de viver, de resolver as coisas, de vontade de ir em frente. Porque eu não era o que as pessoas diziam. A partir daquele momento, as pessoas não me chamaram mais de urubuzinha porque eu não permiti: eu era gente, não era bicho. A foto, até hoje guardo comigo, porque ali está o começo da minha vida. Lembrança do dia em que descobri que eu realmente existia.
Mariza da Conceição Umbelino
Texto extraído da
revista Marie Claire, seção “Eu, leitora”, depoimento a Daniela Chiaretti,
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2005
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