"No futuro, serão considerados analfabetos não aqueles que não souberem ler, mas também quem não entender o funcionamento de uma máquina fotográfica" - Lászlo Moholy-Nagy; Fotógrafo Húngaro; 1936

 
Magneti Marelli COFAP

Uma operação de substituição das identificações funcionais, mais conhecidos como crachá, na Magneti Marelli COFAP, causou grande surpresa e comentários pelos seus funcionários, pois foi montado um verdadeiro estúdio de “book” para a realização das fotos.

Toda a polêmica originou da necessidade de se atualizar o visual do crachá. A multinacional, que tem várias unidades no país e possui mais de 3.000 funcionários, iniciou os estudos de lay-out para essa nova identificação funcional. Escolhido o desenho final, um problema apareceu: quando se inseria a foto do funcionário no crachá havia uma grande discrepância entre o visual arrojado e moderno do material e a foto realizada pela empresa contratada em produzir a identificação.

Como acontece na grande maioria das identificações pessoais, as fotos são realizadas com a pessoa de frente, com uma iluminação frontal, deixando a foto “chapada”. Diante da dificuldade em continuar o processo, já que a foto não combinava com o desenho, a empresa entrou em contato conosco. Elaboramos uma consultoria sobre esse problema. Descobriu que o equipamento de iluminação disponível na empresa que ia confeccionar os crachás impossibilitava qualquer melhoria na qualidade da foto a ser feita. Os próprios funcionários dessa empresa contratada não eram fotógrafos e não estavam treinados para qualquer mudança de estilo ou padrão das fotos dos empregados a serem retratados.

Assim ficou determinado que as fotos teriam uma iluminação típica de “book”, ou seja, uma luz lateral principal, uma secundária do lado contrário e uma luz de contorno superior. Foi escolhido um fundo amarelo em degrade circular. Os funcionários ficariam em posição ligeiramente de perfil e deveriam ter uma expressão de sorriso.

Aprovado essa etapa, partiu-se para a captação das imagens dos funcionários utilizando-se equipamento digital de 2,1 Megapixel, com gravação direta em CD. A Tempo-T ficou encarregada de fotografar todos os mais de 3.000 funcionários distribuídos em vários locais, desde São Paulo capital, passando pelo Grande ABC até na cidade de Lavras – MG.

 

Sorria...

 

Os funcionários, quando foram chamados para fazer a fotografia, se deparam com um verdadeiro estúdio fotográfico montado nas dependências da empresa.

Acostumados com fotos seguindo o “padrão 3x4” (de frente e luz frontal), acharam muito estranho ter que se posicionar meio de lado. Mas a surpresa foi maior quando o fotógrafo pedia para eles sorrirem. Era uma exigência do departamento de RH, pois a mudança deveria ser encarada como uma nova forma de ver a imagem do funcionário.

Apesar da surpresa inicial, foi fácil fazer pessoas alegres sorrirem. A dificuldade foi quando o funcionário estava com problemas na família ou mesmo no serviço. Usando um pouco de persuasão e apelando para temas como futebol, pescaria e mulher, conseguíamos descontrair os funcionários e fazer que emergissem lindos sorrisos, mesmo de pessoas sem nenhuma aptidão para ser modelo fotográfico.

Mas muitos casos engraçados ocorreram durante as seções de fotos. As mulheres em geral, mais vaidosas, quando percebiam como ia ser a seção de fotos, saiam correndo para se maquiar e arrumar o cabelo. Houve um caso de uma jovem mulher que chegou toda maquiada, com grandes brincos e colares, sobre o uniforme da empresa. Os homens, discretamente, pediam o espelho para verem se estavam arrumados.

Acostumado a fotografar modelos profissionais e executivos, o fotógrafo Ailton Tenório comenta que os funcionários, de maneira geral, se portaram muito bem diante da iluminação e da câmara. “Foram muitos poucos funcionários que se sentiram constrangidos ou não se predispuseram a sorrir. Mas com um pouco de conversa, tudo foi resolvido”, esclarece Tenório, “afinal é a própria imagem da pessoa que está em jogo e todos querem parecer bem para seus amigos e familiares”.

Através desse trabalho, continua Tenório explicando, se notou uma grande preocupação e ansiedade em saber como ficariam as fotos. “A fotografia talvez seja a mais dramática forma de captar a expressão humana. Se ela não nos rouba a nossa alma, como diziam alguns povos, com certeza ela pode mostrá-la ao mundo”, finaliza Ailton Tenório.

Maiores Informações da empresa:

Magneti Marelli COFAP
Departamento de Comunicação
Magneti Marelli Cofap
11- 4519-1241
luciane.falconi@marellicofap.com.br

 

  

Bate-papo com o fotógrafo

 

Pergunta: Você que é um fotógrafo de publicidade ha muito tempo, porque realizou esse serviço?

Ailton Tenório: Atuo no setor de publicidade há mais de 12 anos. Comecei como muitos fotógrafos, sendo assistente de outros fotógrafos famosos. Fiquei uns meses com o Walter Abreu, que hoje é sócio da grande agência DPTO, e mais de um ano com o J.C. França, que foi um dos pioneiros em fotografia digital no Brasil. Foi ele quem me ensinou muito no começo.

Atualmente atendo a qualquer ramo de empresa, desde fotos de empresas alimentícias, como a Effem, (Linaguotto e Castelari), setor hospitalar como o Hospital Christovão da Gama e Hospital São Bernardo e Hospital da Criança, área de autopeças e metalúrgica como a Magneti Marelli COFAP, Metagal, brinquedos como a Pica-Pau e BigStar, cosméticos como a Depilart e MaxLove e até as alumineiras (panelas) como a Alegrete, Nigro e Majular.

Assim, foi um desafio fazer esse trabalho, que era de certa forma uma novidade para mim.

 

Pergunta: Então você nunca tinha tido uma experiência como a de fotografar mais de 3.000 pessoas?

Ailton Tenório: Não, nunca tinha feito. Normalmente esse trabalho é executado pelas próprias empresas que produzem os crachás. Por causa desse serviço acabei conversando com algumas empresas desse ramo o que me informaram que o trabalho de captação de imagens para crachás é feito por profissionais não habilitados. São funcionários que não tem conhecimento básico da técnica fotográfica, apenas se limitam a reproduzir um padrão. Devido às exigências da empresa, tive que produzir ensaios e testes para verificar qual era a melhor alternativa.

 

Pergunta: E o que você extrai essa história?

Ailton Tenório: É fascinante fotografar pessoas. Eu sou 90% do tempo fotógrafo de coisas. Peças, produtos, ambientes etc. Quando fotografo gente, ou é um modelo profissional, um alto executivo ou um profissional técnico. São pessoas que estão habituadas de alguma forma com luzes e câmeras. Mas fotografar pessoas simples, funcionários de fábricas, inclusive do interior, traz outra dimensão à fotografia. Muitas dessas pessoas afirmaram que nunca tinham tirado fotos na vida, exceto as “3 por 4” para os documentos.

 

Pergunta: Então foi muito diferente fotografar os funcionários em relação a modelos famosas...

Ailton Tenório: Com certeza, já que tínhamos um prazo de um minuto e meio para cada um! Fotos com modelos profissionais podem durar horas, com o acerto da luz, da posse etc. No caso desse serviço o que durava era a fila...

 

Pergunta: Formou-se fila de funcionários para você fotografar???

Ailton Tenório: Não podíamos parar a fábrica ou mesmo uma seção para que todos fossem fazer as fotos. Assim tínhamos momentos que se formava fila, que era na hora do almoço, do jantar, da ceia...

 

Pergunta: Mas que horário eram feitas essas fotos?

Ailton Tenório: Esse foi outro desafio. Além da quantidade de pessoas e do tempo curto para se conseguir um sorriso, a programação exigia que começássemos de manhã e que continuássemos a fotografar até o terceiro turno, acabando lá pelas 2 ou 3 horas da madrugada. E no outro dia começava de novo...

 

Pergunta: E como você conseguia que todos sorrissem?

Ailton Tenório: Não foi fácil... Quando se formava uma pequena fila, de 3 ou 4 pessoas era mais simples, pois o funcionário já vinha rindo da situação, das piadas, dos amigos. Era só pedir um pouco de concentração e a foto saia boa. Mas quando se tinha 10 ou 20 pessoas aguardando, começávamos a perder o controle. Certa vez tive que por todos para fora da sala! Era a vez de uma mulher que estava sendo fotografada e ela ficou nervosa...

 

Pergunta: E resolveu o problema?

Ailton Tenório: Com a funcionária sim, mas criei outro com os funcionários no corredor (risos)... O supervisor passou no momento pelo local e pos todo mundo para correr...

 

Pergunta: Você comentou antes que as mulheres se produziam mais, vinham maquiadas...

Ailton Tenório: Levamos um espelho, alguns pentes e escovas, para os funcionários se arrumarem. Minha assistente de produção verificava a condição do uniforme e pedia para trocar, se necessário. Mas não tínhamos tempo nem condição de oferecer um cabeleireiro ou maquiador profissional. Nem era o caso. Deixávamos livre para quem quisesse se maquiar. Um batom era condição básica para as mulheres, mas umas levavam mais sério a coisa e se não usassem o uniforme, você acharia que eram modelos.

 

Pergunta: Você acha que alguma funcionária pode seguir carreira de modelo?

Ailton Tenório: Acredito que a beleza física não é apenas ditada pelas revistas de moda e seus manequins. A beleza pode ser encontrada nas pessoas simples, nos mais humildes. Dentre os mais de 3.000 funcionários que fotografei, diria que mais de 20% são de pessoas com grande potencial fotogênico, ou seja, não são necessariamente dentro do padrão das revistas, mas são pessoas muito bonitas.

 

Pergunta: São essas pessoas que você selecionou...

Ailton Tenório: Fiz uma pequena e rápida seleção. Só para demonstrar às pessoas que a beleza não está na mídia, não está no padrão “Gisele”, mas pode ser encontrado em todo lugar, até em fábricas. São pessoas comuns, mas com um sorriso verdadeiro!

 

Pergunta: Mas em relação ao sexo, quem era mais fácil de fotografar sorrindo, o homem ou a mulher?

Ailton Tenório: O homem em geral não tem grande preocupação com sua imagem. Muitos nem queriam olhar-se no espelho. Já as mulheres estão acostumadas com essa prática, pois se olham e se analisam diariamente. Quase todas...

 

Pergunta: Quase... Porque?

Ailton Tenório: Teve uma mulher que não queria sorrir de jeito nenhum. Ela disse que não gostava de se ver sorrindo. Que gostava da imagem dela “brava”... Vai entender...

 

Pergunta: E quantas fotos faziam de cada funcionário?

Ailton Tenório: Normalmente 3 imagens. Uma para identificação e duas para escolher a melhor.

 

Pergunta: Quase 10.000 cliques?

Ailton Tenório: Mais de 10.000 imagens, já que algumas vezes a pessoa não sorria ou saía da posição correta O recorde foi 8 posses de uma garota, que ria muito e não conseguia olhar para a câmera sem se mexer. Como estava usando luz contínua e não flash, um movimento mais brusco borrava a foto. Ao todo foram 52 CD, mais de 8 Gb de imagens.

 

Pergunta: Que equipamento você usou?

Ailton Tenório: Uma câmera digital da Sony, que usa mini-CDRs para gravar as imagens. Ela é muito boa, mas lenta, o que dificultou o serviço. Mas de outra forma, facilitou o armazenamento das imagens e adiantou o serviço da produção. Se usasse uma câmera de cartão de memória teria que descarregar freqüentemente as imagens em algum micro. E se usasse filme, seriam centenas de rolos.

 

Pergunta: Você pretende continuar a atuar nesse ramo (fotos para crachás)?

Ailton Tenório: Não! Foi um serviço especial para um cliente especial. Mas poderia montar uma equipe para tal...

 

Pergunta: Qual é a sua mensagem final?

Ailton Tenório: Sorria...

 


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